O povo brasileiro e seus matizes étnicos: o indígena, o português e o negro

O povo brasileiro se diferencia por seus matizes étnicos: o indígena, o português e o negro. A formação deste povo-nação único, que possui uniformidade cultural e nacional, mas está crivado de disparidades, é o tema que Darcy Ribeiro procura compreender no livro ‘O Povo Brasileiro’, um clássico nacional.
Os índios perceberam a chegada do europeu como um acontecimento espantoso; dentro de sua visão mítica, seriam pessoas generosas. Contudo, o choque dos mundos foi terrível: para os índios, a vida era um fruir constante; para os recém-chegados, um mundo de pecado, de enfermidades, de acumulação.
O povo brasileiro se formou graças a um velho uso indígena chamado “cunhadismo”: pelo casamento, estabeleciam-se laços de parentesco com praticamente todos os membros da tribo. Quando um português casava com uma índia, formava laços com mulheres, podendo inclusive ter relações sexuais com algumas delas. O cunhadismo gerou núcleos em que os portugueses foram mesclando seu sangue aos dos indígenas em velocidade espantosa, dando origem aos mamelucos ou brasilíndios. Eles passaram a constituir o cerne da nação, e, juntamente com os negros abrasileirados, criaram sua cara e identidade.
Os negros trazidos da África eram de tribos diferentes e não falavam a mesma língua. Alguns eram, inclusive, inimigos. Como não conseguiam comunicar-se entre si, passaram a ocupar o idioma do colonizador, sendo seus grandes difusores. Além disso, contribuíram com a cultura que conseguiram manter ao serem tão pulverizados: as artes mágicas, a culinária e a música. Maltrapilhos e sujos, sofriam a rotina de castigos horrendos que lhes eram infligidos: dedos cortados, tendões rompidos, dentes quebrados criteriosamente, queimados vivos. Nenhum povo que passasse por isso deixaria de ficar marcado. Assim que nós, brasileiros, conjugamos a doçura mais terna e a crueldade mais atroz.
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